domingo, 4 de janeiro de 2009

Ainda o Natal

As Mãos, o Natal

Uma sombra abateu-se sobre a casa. Aquela casa perdida entre as outras, naquela rua estreita sem saída, presa àquela terra que agarrava com força as raízes, que absorvia a vida toda, a alegria, o riso, a vitalidade, o sangue das pessoas. À volta, o que tinha um dia sido arvoredo era agora um número reduzido de árvores no fim de vida, poucas com folhas, quase todas magras e definhadas. E a casa resistia como podia. As trevas começaram a adensar-se na noite de natal, quando o ar se polui de gases e foguetes, e os rostos são de festa. Naquela casa, também os rostos das pessoas que lá moravam tentaram ser de festa, mas as raízes rangeram, tremeram e desistiram. Aos poucos, a energia continuava a ser sugada pela terra, como uma seringa que extrai sangue das veias das pessoas, aspirando o mínimo átomo de contentamento, todas as partículas de vida, todo o brilho dos olhos das pessoas da casa. A ceia de natal iniciara-se e eram três os comensais. Olhavam uns para os outros enquanto enfiavam lentamente a comida na boca. A toalha, com motivos alusivos à época, impecável e brunida para a ocasião, parecia derreter-se à medida que o som da televisão aumentava de volume. No ecrã, mostrava-se as últimas catástrofes do mundo, os dilúvios, as decapitações, os reis que cortavam mãos ao povo, os padres que violavam as meninas de vermelho na floresta, a crucificação dos pretos e dos que se vestiam de preto, a doença que tornava podres e disformes as crianças que nasciam de ventres infectados, e também o sorriso branco e largo das pessoas que sabiam cozinhar. A tudo isto os três habitantes daquela casa pareciam indiferentes. Eram só eles, a toalha e a casa. Havia doces para sobremesa, postas de lado que estavam as espinhas e ossos, e vinho quente para aquecer a pele. Os olhos de cada um dos que se sentavam à mesa iam adquirindo paulatinamente uma cor negra que se alastrava pelo branco, entrando pelas pálpebras dentro com desenhos que pareciam os ramos das árvores lá fora. Rapidamente, a mancha negra começou-se a espalhar pela pele. Os doces de natal eram devorados em grandes pedaços e o vinho engolido em tragos espaçados e demorados. Ainda o som da televisão. Os foguetes lá fora. Jesus tinha nascido. Era meia-noite. As sombras que circundavam a casa e a sobrevoavam continuavam a crescer, estavam prestes a devorá-la. Não havia prendas. Qualquer réstia de desejo de surpreender porque era natal há muito que havia deixado aquelas paredes. Quando a ceia terminou, olharam os três uns para os outros e deram as mãos. Estavam quase negros de cima a baixo. Sentiam a terra a sugá-los e as sombras a devorá-los. Sabiam que este era o fim. A toalha, derretida, era agora um líquido vermelho espesso que escorria da mesa. Agarradas que estavam as mãos umas às outras, os três fecharam os olhos com força e porventura alguma confiança e fé. A casa precipitou em desabar, primeiro o chão que se abriu, depois o tecto que foi arrancado e arremessado para a noite, e por fim as paredes que caíram. Sentiram os seus corpos a serem esticados, puxados por todos os lados, prestes a explodirem. Ouviu-se os primeiros tecidos a rasgarem. As roupas pouca resistência ofereceram, assim como os cabelos e os olhos. A pele começou a partir e abrir em fendas finas e profundas. De seguida, a carne foi lacerada e arrancada dos ossos, que começaram a separar-se uns dos outros. Tudo aconteceu sem gritos nem barulho algum. Os foguetes continuaram. Era natal. Só restaram as mãos sobre a mesa, completas, agarradas com força umas às outras.

sábado, 27 de dezembro de 2008

Heartfelt



Garbage - Cup of Coffee

Um dia ainda tenho esperança que me vá sentir assim.

The past

We always hurt the ones we love

quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Um poema para o Papa

"The Pope's Penis"
by Sharon Olds

It hangs deep in his robes, a delicate
clapper at the center of a bell.
It moves when he moves, a ghostly fish in a
halo of silver sweaweed, the hair
swaying in the dark and the heat -- and at night
while his eyes sleep, it stands up
in praise of God.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

Pensamentos natalícios

Ao ódio responde-se com ódio.

Não és mais do que um nazi, Bento XVI - um nazi disfarçado com vestes de ouro da tua opulenta, gorda e repugnante Igreja.

Não és melhor do que o Hitler foi. Por tua causa o mundo ignorante procederá à prática de crimes em nome desse vosso deus tão em letra minúscula como os outros.

Quantas mulheres já fodeste hoje? Ou homens? Ou crianças? Nada disto seria novo na vossa instituição, afinal. E depois falas-me da linguagem de deus. Eu corto a língua e as mãos a deus, e arranco-lhe os olhos. Não ficaria mais cego do que o que já é.

Eu odeio-te, Bento XVI. Eu odeio-te porque TU és anti-natura.

Que caias da tua cadeira e exponhas as tuas deficiências e perversões ao mundo. Que os crentes te atirem com pedras. Morre, morre, definha e morre.

Talvez assim o mundo ficasse um pouco menos mau.

Natal

É Natal e eu trocava-o por uma foda bem dada.

Ciclo

Por mais que ame e foda, quando nada disso me resta, (ou pelo menos não me resta o amor) volto e hei-de sempre voltar para ti. Ad aeternum