terça-feira, 23 de junho de 2009

A Solução Final

"Dai-me os frutos do vosso vómito. E as tesouras para podar o meu eco. A escada para subir ao elefante do escárnio. Rio-me face ao sol. E nem sei se beber vinho me faz inchar as mãos. O que está do outro lado é sempre melhor, mais feliz. Dai-mo, esse lado trespassado pela alergia de ser morrente. Para que eu ultrapasse a vida no desejo de me ter."
Sem género nem nome, assim sobrevoaremos a cidade e assistiremos à sua autodestruição. Sentiremos o chão desabar sob os nossos pés e o calor insuportável do fim do mundo. Desapareceremos. Mas na nossa concretização final, no suprimir da Terra, daremos a vida pelo diário - para que fique originalmente no centro do novo planeta que surgirá. Sim, destruamos o mundo. Sem nome nem género. A cidade em chamas, nós daremos as mãos ao ardermos. E a história há-de recomeçar já escrita.

terça-feira, 16 de junho de 2009

O Impacto

Tudo volta para mim agora, diz Adão, venerando, Tudo o que fiz em ricochete a trespassar-me. E eu que fui construindo um monstro sem amar, agora revejo-me na decepção que os anjos mandam para mim. Assim diz Adão, olhando o espelho. O seu amor próprio alimentado pelo desprezo pelos outros. Quão errado estive. Na minha voz, de narrador e de personagem, agora abafada por uma outra, imensa, mais forte, que me deu silêncio neste espelho. E ele que queria voltar a amar, Fui atingido pela figura que projectei, no esgar de troça que a figura lhe devolve, Preso na indiferença do corpo, sabe agora que tem de voltar a amar, Suspenso na memória nocturna, e não sabe quando o fazer, Eu que não choro não consigo chorar, contempla-se sem esperança nem tristeza, Quando começarei novamente a fraquejar, fazendo perguntas sem resposta.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Lógica

Quem diz que os ateus não crêem é porque não sabe que eles acreditam que não há Deus.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

da sociedade de classes

Como não sermos hipócritas se é inevitável que ao andar esmaguemos alguns insectos?

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Questionamento Religioso

O Bento XVI reviu aquilo que acontecia às crianças mortas antes do baptismo. Agora, segundo ele, essas almas passariam directamente para o Céu e não ficariam, como até aí, no limbo. A minha pergunta é: o que aconteceu às outras todas que foram para o limbo? Querem ver que a Igreja aproveitou essas alminhas para lhes dar corpos e usá-los depois para actos de pedofilia que tão bem se têm vindo a descobrir serem profusos no seu seio?

terça-feira, 26 de maio de 2009

O rei desconstrói, sorrindo.

Tenho medo de viver com medo de viver. Quero esgotamentos nervosos, quero saber que já fiz tanto, que ainda me falta tanto para nunca chegar a fazer tudo. Desdobrar-me todo em todos múltiplos de todos. Tão pouco tempo e, no entanto, tantas coisas para fazer, que a ironia é tão grande por não poder dispender todo o tempo a gastá-lo com essas mesmas coisas. E dormir tão profundamente é fazer muitas coisas, sonhos molhados, pesadelos febris, ideias, arte para canhão. Disparar poemas contra tudo o que mexe e foder, foder, foder. Amar tudo no ódio de gostar. E amar. Perpetuamente amar no espaço liminal de um ritual de passagem que termina em nenhuma revelação. Sem para sempre é complicado de conceber - e a língua anda à frente das ideias inconcebíveis. Para sempre sabendo que a eternidade não é imortal. Anda este rei à procura do trono, sentado nele.

sábado, 23 de maio de 2009

A Redução do Riso 2

A Caixa Número Três, A Quinta Bobina

A Krapp

A minha memória gravada, (solidão de quem recorda
sem se lembrar), entoa a minha voz apagada,
enquanto eu, preso a um fio rompido, bebo à minha loucura
de ser estrume. E escorrego nele, de face calada,
rememorando os obtusos anos
da minha procura.
Suspendo o fio, adianto, regresso e
grito nos intervalos da lembrança
e contra-digo o discurso que digo;
os aniversários enfadam-me, o amor cansa,
eu fui porcaria jovem e a minha aurora
um castigo.
Nessa caixa número três, na quinta bobina,
rodam os anos magoados,
e eu bebo sozinho e amaldiçoo toda a minha história;
para mais tarde, vencido, de olhos tão fechados,
que se abrirão vazios, escutar abraçado o silêncio
da minha memória.
Picasso, "Harlequin Sitting on a Red Couch", 1905