terça-feira, 6 de outubro de 2009

A República

O dia 5 de Outubro já lá vai no meu país. E aqui onde a democracia atinge a sua faceta mais verdadeiramente alucinante e quase tirana eu sinto vontade de bem alto proclamar, Viva a República, mas o meu grito nunca chegaria os ouvidos moucos dos quasi-nobres-p'ra-ser de Portugal. É o tipo de gente que acredita no horóscopo e tem tempo e dinheiro para esperar que a monarquia seja restaurada e o tio Sebastião lhes volte para encher os cofres de ouro negro e de sangue.
E quase me esquecia que os outros não são assim tão diferentes, hoje em dia. Algum dia o foram?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O Medo



Amália Rodrigues - "Medo"

O medo de que aqui se fala é a mão que nos prende a alma e a espreme diariamente. É esse sentimento inominável que nos tira o sono e nos faz gemer e gritar num silêncio de rasgar o peito. É o ímpeto para esmurrar o nosso tronco, a fim de permitir que o ar passe correctamente. É, muito simplesmente, o medo de existir. Não, talvez seja mais ainda o receio de viver um perpétuo sintoma do mal de ser. A desnaturalização do olhar é porventura o início de tal medo. No momento em que os nossos olhos vêem demasiado para dentro de nós, é aí que começa a ser difícil sair do espelho que é o contínuo acordar. E então teme-se todas as naturais consequências de se estar vivo e de se gostar das pessoas e das coisas. Pelo simples receio de sofrer.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Afinal de Contas

Saí do quarto para fumar um cigarro. No frio da noite havia um rapariga a andar de skate, praticando de um lado para o outro. Eu vi nela todos os ensinamentos do mundo. É o meu aniversário onde nasci. Afinal, para que nasce uma pessoa?

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Marilyn Manson - "Man That You Fear" (live 1997)

O piano fala pelo resto da música. A performance marca todas as palavras cantadas e confere-lhes maior significação e alcance. E aposto que Beckett (como me foi sugerido por alguém) poderia ter inventado uma personagem que pelo menos se assemelhasse à pose assumida pelo Manson nesta interpretação.

domingo, 27 de setembro de 2009

Uma Oração

Creio nos anjos
que andam pelo mundo
Creio na deusa
com olhos de diamante
Creio em amores lunares
com piano ao fundo,
Creio nas lendas,
nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho
que falta mais fecundo
De harmonizar
as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno
num segundo,
Creio num céu futuro
que houve dantes,

Creio nos deuses
de um astral mais puro,
Na flor humilde
que se encosta no muro
Creio na carne
que enfeitiça o além

Creio no incrível,
nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o amor tem asas
de ouro. Amén

Natália Correia, "Creio"

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

"God's Aways on Business"

"I don't think God knows who we are. I think He would like us, if He knew us, but I don't think He knows about us.

But He made us, Miss. No?

He did. But He made the tails of peacocks too. That must have been harder.

Oh, but, Miss, we sing and talk. Peacocks do not.

We need to. Peacocks don't. What else do we have?

Thoughts. Hands to make things.

All well and good. But that's our business. Not God's. He's doing something else in the world. We are not on His mind.

What is He doing then, if not watching over us?

Lord knows."

in Toni Morrison, A Mercy

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Arquitectando Esqueletos

O tubarão deu à costa morto, pescado acidentalmente ou apagado por causas naturais, não me recordo. Estava doente, enfermo numa cama de hotel, com o cérebro queimado de febre e a cara destruída pela temperatura do corpo.

aos confrontos
crispados de rebentamentos

em mim

férias mais cedo, de volver ao país porque havia assuntos prementes a resolver. E eu pensava
Metemo-nos à pressa num táxi em direcção ao aeroporto. As pessoas acharam que tínhamos prioridade
e a vida, que estavam
eram arrasadas por vergastadas. Eu era jesus desnudo, com os braços livres para me tocar.
de culpa. E no funeral eu só soube rir-me em casa. Não vi onde ias, para onde foste, não te vi a ser devorado pela terra. Mas ouvi os gritos de todos, ouvi-os ao masturbar-me depois
e que uma das tuas irmãs reprovou. Éramos nós desorientados na tua ausência.

pretas, dizia a minha mãe. E aí eu soube que estavas morto. No fundo de mim, eu soube que me morreras. O teu tio Tónio morreu. O meu tio Tónio morreu. Chorei.
nunca o teres feito. A tua face sisuda ao ver-nos, sabendo nós que não permitirias que as lágrimas
e tal foram um crescendo. O fim de tarde lento, de calor, o meu gato desnorteado, ao chegarmos
um dos teus sobrinhos e chorei. A minha camisola preta de mangas compridas que
sofria. Não porque o meu sofrimento não fosse verdadeiro, mas porque queria que percebessem
A morte tocou-nos no calor, dilacerados por um sol que nunca mais nos aqueceu. Dizia-se, já não há alegria.
Eu que sempre evitava visitar esse espaço. Era um novo ciclo de paixões que me aconteciam
o tumulto da incerteza e o início da imbecilidade da inveja dos outros corpos
se começava a delir na minha memória. E disse a minha mãe, que, a jeito de me
racionalidade.

coisas e uma profunda amargura ao prever o sofrimento das fotografias progressivamente
mais baças.