terça-feira, 6 de outubro de 2009
A República
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
O Medo
Amália Rodrigues - "Medo"
O medo de que aqui se fala é a mão que nos prende a alma e a espreme diariamente. É esse sentimento inominável que nos tira o sono e nos faz gemer e gritar num silêncio de rasgar o peito. É o ímpeto para esmurrar o nosso tronco, a fim de permitir que o ar passe correctamente. É, muito simplesmente, o medo de existir. Não, talvez seja mais ainda o receio de viver um perpétuo sintoma do mal de ser. A desnaturalização do olhar é porventura o início de tal medo. No momento em que os nossos olhos vêem demasiado para dentro de nós, é aí que começa a ser difícil sair do espelho que é o contínuo acordar. E então teme-se todas as naturais consequências de se estar vivo e de se gostar das pessoas e das coisas. Pelo simples receio de sofrer.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Afinal de Contas
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Marilyn Manson - "Man That You Fear" (live 1997)
O piano fala pelo resto da música. A performance marca todas as palavras cantadas e confere-lhes maior significação e alcance. E aposto que Beckett (como me foi sugerido por alguém) poderia ter inventado uma personagem que pelo menos se assemelhasse à pose assumida pelo Manson nesta interpretação.
domingo, 27 de setembro de 2009
Uma Oração
que andam pelo mundo
Creio na deusa
com olhos de diamante
Creio em amores lunares
com piano ao fundo,
Creio nas lendas,
nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho
que falta mais fecundo
De harmonizar
as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno
num segundo,
Creio num céu futuro
que houve dantes,
Creio nos deuses
de um astral mais puro,
Na flor humilde
que se encosta no muro
Creio na carne
que enfeitiça o além
Creio no incrível,
nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo
pelas rosas,
Creio que o amor tem asas
de ouro. Amén
Natália Correia, "Creio"
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
"God's Aways on Business"
But He made us, Miss. No?
He did. But He made the tails of peacocks too. That must have been harder.
Oh, but, Miss, we sing and talk. Peacocks do not.
We need to. Peacocks don't. What else do we have?
Thoughts. Hands to make things.
All well and good. But that's our business. Not God's. He's doing something else in the world. We are not on His mind.
What is He doing then, if not watching over us?
Lord knows."
in Toni Morrison, A Mercy
sexta-feira, 18 de setembro de 2009
Arquitectando Esqueletos
aos confrontos
crispados de rebentamentos
em mim
férias mais cedo, de volver ao país porque havia assuntos prementes a resolver. E eu pensava
eram arrasadas por vergastadas. Eu era jesus desnudo, com os braços livres para me tocar.
e que uma das tuas irmãs reprovou. Éramos nós desorientados na tua ausência.
pretas, dizia a minha mãe. E aí eu soube que estavas morto. No fundo de mim, eu soube que me morreras. O teu tio Tónio morreu. O meu tio Tónio morreu. Chorei.
nunca o teres feito. A tua face sisuda ao ver-nos, sabendo nós que não permitirias que as lágrimas
sofria. Não porque o meu sofrimento não fosse verdadeiro, mas porque queria que percebessem
A morte tocou-nos no calor, dilacerados por um sol que nunca mais nos aqueceu. Dizia-se, já não há alegria.
o tumulto da incerteza e o início da imbecilidade da inveja dos outros corpos
racionalidade.
coisas e uma profunda amargura ao prever o sofrimento das fotografias progressivamente
mais baças.
