sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

previsão de um certo modernismo

"E na sua face enrugada, através deste berro, lampejava sempre tanta indignação, que eu curvava os ombros, humilde, no arrependimento de ter afrontosamente ultrajado o Príncipe que tanto amava. Desventurado Príncipe! Com o seu dourado cigarro de Yaka a fumegar, errava então pelas salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem afeicões e sem ocupações. Esses desafeiçoados e desocupados passos monótonos o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, à Biblioteca de ébano, onde acumulara Civilização nas máximas proporções, para gozar nas máximas proporções a delícia de viver. Espalhava em torno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe solicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das pantalonas de seda, numa inércia de derrota. Anulado, bocejava com descoroçoada moleza. E nada mais instrutivo e doloroso do que este supremo homem do século XIX, no meio de todos os aparelhos reforçadores dos seus órgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universais, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos séculos - estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão mole de um bocejo, o embaraço de viver!"

Eça de Queirós, A cidade e as serras.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

bang bang!

Sentindo-me culpado pela notória falta de sentido de moda desta senhora, gosto, no entanto, e bastante, desta canção. Ouço-a no autocarro que leva os alunos graduados e não só (eu incluído na secção pós-graduada) à cidade de Santa Barbara, desde quarta-feira até sábado. O autocarro é uma porcaria. A música boa. E ao que parece a M.I.A está a trabalhar com os Buraka. A cantora da banda portuguesa também não preza pelo modo de se vestir - mas a música não padece por isso. Faça-se, então, mais música boa e a moda que espere um pouco! ;)
M.I.A - "Paper Planes"

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

conhecer

"Por que não tentas ajudar-te?
Eu não quero ajudar-me.
Porquê?
Um dia talvez te diga.
A conversa seguia como se segue por um desvio, afastando-se do objectivo principal, tal como acontece, de resto, na maior parte das conversas. Ele sabia que extrair informação dela seria difícil, senão até impossível. Ela era quase imperscrutável, um porta fechada a sete e mais chaves, e ele só conseguia ver pelo buraco da fechadura, apenas podia observá-la através daquela pequena janela para o interior. Mas ele queria a todo o custo sabê-la, descobri-la, inteirar-se do que lhe ia na alma. Não lhe oferecia ajuda alguma, oferecia somente sugestões. Se ela se ajudasse a ela própria ou procurasse ajuda profissional ele iria finalmente conhecê-la, porque só se conhece a personalidade dos aflitos quando eles fazem por matar os insectos que lhes comem o sorriso.
Diz-me, já pensaste em psiquiatras, psicólogos, talvez?
Eu não preciso nem de uns nem de outros. Não.
Mas talvez eles te pudessem
Não podem nada. Por favor, não insistas.
Mas qual seria o mal?
Esse é o problema, não me faria mal nenhum.
Não sei se percebo o que dizes.
O mal que tenho é meu. O vazio que tenho dentro de mim é só meu. São as únicas coisas minhas, só minhas e de mais ninguém. Quero preservá-las acima de tudo.
Mas e se
São minhas. Afasta-te.
Ele levantou-se e ela saiu rapidamente. Ainda lhe sentiu o perfume doce e afiado como uma lâmina. Nunca iria conhecer aquela mulher. Só lhe sabia o mal e ela nunca o partilharia com ninguém."
Frederico Rodrigues, Quero-te na calada da
noite

domingo, 7 de fevereiro de 2010

a noite em Paris

leituras escritas

"Os moribundos corriam e bebiam água, descobrindo uma nova forma de vida - eu sabia que o ataque estava para breve. Aquela casa de deboche seria o primeiro alvo e eu não tinha maneira de avisar quem lá morava. (...) Levaram-no enquanto dormíamos. Aqueles sanguinários acéfalos tinham-no levado. E era hora de eu voltar a casa."
Frederico Rodrigues, Quero-te na calada da
noite
.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Odete

Ainda estou para saber por que razão a maior parte dos realizadores portugueses não entende a diferença entre o cinema e a literatura.

a receita do oblívio