In place of a hermeneutics we need an erotics of art. "
Susan Sontag, "Against Interpretation".
Se tentarmos mudar, O barulho da cidade engole-nos. Ouçamos o grito gentil do piano Numa noite em que todos os rostos sejam de festa. Mesmo antes do fim do mundo, um estrondo. Mesmo antes do fim, uma música. No dia em que o mundo for embora.
Susan Sontag, "Against Interpretation".
Amália Rodrigues - "Medo"
O medo de que aqui se fala é a mão que nos prende a alma e a espreme diariamente. É esse sentimento inominável que nos tira o sono e nos faz gemer e gritar num silêncio de rasgar o peito. É o ímpeto para esmurrar o nosso tronco, a fim de permitir que o ar passe correctamente. É, muito simplesmente, o medo de existir. Não, talvez seja mais ainda o receio de viver um perpétuo sintoma do mal de ser. A desnaturalização do olhar é porventura o início de tal medo. No momento em que os nossos olhos vêem demasiado para dentro de nós, é aí que começa a ser difícil sair do espelho que é o contínuo acordar. E então teme-se todas as naturais consequências de se estar vivo e de se gostar das pessoas e das coisas. Pelo simples receio de sofrer.
O piano fala pelo resto da música. A performance marca todas as palavras cantadas e confere-lhes maior significação e alcance. E aposto que Beckett (como me foi sugerido por alguém) poderia ter inventado uma personagem que pelo menos se assemelhasse à pose assumida pelo Manson nesta interpretação.