Aqui está a petição contra o acordo ortográfico da língua portuguesa. Não é coerente nem sensato. E é injusto.
terça-feira, 2 de março de 2010
segunda-feira, 1 de março de 2010
confirmação na arte
"... que fazer? temos sexo, usemo-lo; temos mãos, trabalhemos; que a nossa lamentação ao menos seja um canto verdadeiro; tenho asco e tristeza quando o penso, mas se não pensasse isto tê-los-ia na mesma; pois pensemos; a salvação não está senão em mim, no meu sexo, no meu prazer, ou num filho talvez; se fui talhado para pertencer ao medo, se um pânico me come e me alimenta, seja enfim eu mesmo, e não sem desespero; seja eu para mim um homem, e um deus que se ergue do seu leito nas trevas; são horas de levantar-me, horas de tentar ser; ser, sendo."
Almeida Faria, A paixão
abrupto
Cada vez mais me parece que o capítulo final (ou, pelo menos, os últimos dois capítulos) do Memorial do convento podia muito bem ser um conto, pelas características que apresenta. Bastava um pouco mais de caracterização das personagens e teríamos aí uma bela forma breve. O que não tira de todo a genialidade ao romance.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
as ondas que sempre voltam
FRESTA
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
Fernando Pessoa
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
Fernando Pessoa
o olhar de uma criança
“Estilhaço”
O olhar de uma criança
Fitando um copo rachado
Água a escapar pela fenda
O olhar de uma criança
Descendo a ameaça de
Um alvo desenhado no seu rosto
Vê a serpente mordendo o vidro
O indicador de uma pálida mão incógnita
Abrindo-lhe os queixos avermelhados
O olhar de uma criança
Sabendo que terá de beber o veneno
Abre a boca com receio de um tiro
O corpo do réptil abraçando-lhe o pescoço
O olhar de uma criança
Sob o descolar de um avião
Ou apenas a sua passagem bombástica
O sobrolho franzido e resignado
Aceitando a cor do seu sangue
A mesma cor do veneno da guerra
in Frederico Rodrigues, Guerra
O olhar de uma criança
Fitando um copo rachado
Água a escapar pela fenda
O olhar de uma criança
Descendo a ameaça de
Um alvo desenhado no seu rosto
Vê a serpente mordendo o vidro
O indicador de uma pálida mão incógnita
Abrindo-lhe os queixos avermelhados
O olhar de uma criança
Sabendo que terá de beber o veneno
Abre a boca com receio de um tiro
O corpo do réptil abraçando-lhe o pescoço
O olhar de uma criança
Sob o descolar de um avião
Ou apenas a sua passagem bombástica
O sobrolho franzido e resignado
Aceitando a cor do seu sangue
A mesma cor do veneno da guerra
in Frederico Rodrigues, Guerra
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
a ubiquidade da memória
"... puxa com as mãos o cobertor para o peito, para as barbas e o pescoço engelhado; sem ser capaz de dormir, olha a noite lá fora e a luz pela janela; olha tranquilo o sono e a vigília; sem pressa, sem nenhuma pressa; também não sonha; diz que não está já em idade de sonhar; não se lastima nunca do tempo que passou mas do que passa; vê os poentes e os círculos da tarde, enche o coração de uma alegria calma; dá ao silêncio o seu valor e não busca nos homens senão o que não sabem; ouve o vento distante e não se move; ao canto da açoteia sobre o tecto em que dorme, o vento faz de quando em vez girar num remoinho rápido uma porção de pó e de cotão com pétalas de malva e de roseira brava, restos de linhas com pedaços de pano e papel de jornal, a casca duma barata meio encarniçada no ventre e na base das patas como pentes, os anéis a dessoldar-se e a cabeça larga chata; o bom Moisés, de boca pregueada, nariz curvo de velho, molhado, rugas fundas por toda a face, dorme vestido, de ceroulas, camisa xadrez, meias sujas suadas, e recorda, desperto, sem querer: o silêncio da noite agora é grande, como quando ela morreu; a noite é morte, é a raposa velha; morreu um ano, nem sequer um ano, depois de nos juntarmos; os nove meses, foi aquela conta; albumina, disse o douor, o raio que o parta; o crianço veio morto, vil e cizento, de pescoço torcido; mas não interessava isso, desde que ela vivesse; eu sabia; tinha dez possibilidades de escapar, contra noventa; foi-se; pronto, não sofre, que havemos de fazer? uma noite como esta, deserta e aluada; quando ela morreu estávamos sós os dois, sós como quando amámos; ela deu um grito e em seguida um ai, contente, levezinho, resignado, quando rompi aquilo, nessa noite; não na outra; suava, tinha a cara alagada, cheia de febre, dores, se calhar pena de morrer; fiquei de todo abandonado; andei sem eira nem telha, como um bicho, não voltei a conhecer mulher, foi o diabo; então cá o morgado arranjou-me trabalho; cuidava dos cavalos e vivia-se; mas os cavalos rancolhos tiveram de ser vendidos, e o breque também; a cocheira ficou vazia, eu a dormir nela, verão e inverno, sem ninguém, sentindo a falta da mulher, de um corpo ao menos que nos meus achaques me valesse; hei-de morrer aqui em uma noite destas e só se lembram de mim ao fim do outro dia, ao darem pela minha falta à hora de jantar, quando eu estiver feito um carapau, lívido inteiriçado; na noite em que fugimos fomos para Vila Nova de Milfontes, aí trabalhei de marítimo durante todo o verão; foi um imenso verão; ela não tinha visto o mar, fechada na charneca entre azinheiras, disse que não sabia de o mar ser assim tanta água em moitão, e quando tivemos que atravessar a serra ela perguntou por que é que tinham feito uns cabeços tamanhos, que calhando estavam ali desde que mundo é mundo, desde que Deus Nóssenhor lhes deu amanho; calhando, pois, retorqui-lhe eu; o mar era qual se, à superfície, tivesse posta uma colcha de gaze, uma rede de pesca, em cujas malhas as ondas se afilassem; não me esqueço do mar; é como um espelho ou a eternidade; brilha, reflecte, fere e encandeia; a terra castanha e seca, casas, cercadas de planície; aí é que se sabe a soidade da sede ( e o homem da terra responeu e disse: semeio sempre até que o sono chegue mas a mulher anda de pingadêra e a ceia é velha, como a sede), Moisés sonhou ou passou-lhe aquela nuvem pela vista, deu-lhe uma tonteira e os sentidos a modos que lhe saíram da cabeça; as sobrancelhas pesam, grossas, sobre os olhos abertos; há uma vontade, nele, de regressos; na sombra da cocheira, com freios e estribos e selas de arção, a sua cara de malares e queixos salientes parece rir ou sorrir, mas recorda: devagar fomos para o cemitério; passámos pelos jazigos dos ricos, enfeitados, portas e janelas gradeadas, lamparinas, flores, seguimos para o alto, a parte pobre, onde o vento vinha pelo meio das ervas e desmoronava os torrões das covas rasas; aí, como eu um dia, aí foi que ela adormeceu para sempre."
Almeida Faria, A paixão.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Irritado de novo
A dificuldade em respirar irrita-me. Tal como me irrita a ansiedade social. E a aridez de Isla Vista. E eu mesmo.
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