Nunca pensei que o ódio humano pudesse ser tão rápido, inesperado e irracional (e cobarde). Pergunto: será que as pessoas precisam de afirmar as suas margens através das margens daqueles que não são o centro?
quarta-feira, 24 de março de 2010
domingo, 21 de março de 2010
terça-feira, 2 de março de 2010
mania de matarem as diferenças
Aqui está a petição contra o acordo ortográfico da língua portuguesa. Não é coerente nem sensato. E é injusto.
segunda-feira, 1 de março de 2010
confirmação na arte
"... que fazer? temos sexo, usemo-lo; temos mãos, trabalhemos; que a nossa lamentação ao menos seja um canto verdadeiro; tenho asco e tristeza quando o penso, mas se não pensasse isto tê-los-ia na mesma; pois pensemos; a salvação não está senão em mim, no meu sexo, no meu prazer, ou num filho talvez; se fui talhado para pertencer ao medo, se um pânico me come e me alimenta, seja enfim eu mesmo, e não sem desespero; seja eu para mim um homem, e um deus que se ergue do seu leito nas trevas; são horas de levantar-me, horas de tentar ser; ser, sendo."
Almeida Faria, A paixão
abrupto
Cada vez mais me parece que o capítulo final (ou, pelo menos, os últimos dois capítulos) do Memorial do convento podia muito bem ser um conto, pelas características que apresenta. Bastava um pouco mais de caracterização das personagens e teríamos aí uma bela forma breve. O que não tira de todo a genialidade ao romance.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
as ondas que sempre voltam
FRESTA
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
Fernando Pessoa
Em meus momentos escuros
Em que em mim não há ninguém,
E tudo é névoas e muros
Quanto a vida dá ou tem,
Se, um instante, erguendo a fronte
De onde em mim sou aterrado,
Vejo o longínquo horizonte
Cheio de sol posto ou nado
Revivo, existo, conheço,
E, ainda que seja ilusão
O exterior em que me esqueço,
Nada mais quero nem peço.
Entrego-lhe o coração.
Fernando Pessoa
o olhar de uma criança
“Estilhaço”
O olhar de uma criança
Fitando um copo rachado
Água a escapar pela fenda
O olhar de uma criança
Descendo a ameaça de
Um alvo desenhado no seu rosto
Vê a serpente mordendo o vidro
O indicador de uma pálida mão incógnita
Abrindo-lhe os queixos avermelhados
O olhar de uma criança
Sabendo que terá de beber o veneno
Abre a boca com receio de um tiro
O corpo do réptil abraçando-lhe o pescoço
O olhar de uma criança
Sob o descolar de um avião
Ou apenas a sua passagem bombástica
O sobrolho franzido e resignado
Aceitando a cor do seu sangue
A mesma cor do veneno da guerra
in Frederico Rodrigues, Guerra
O olhar de uma criança
Fitando um copo rachado
Água a escapar pela fenda
O olhar de uma criança
Descendo a ameaça de
Um alvo desenhado no seu rosto
Vê a serpente mordendo o vidro
O indicador de uma pálida mão incógnita
Abrindo-lhe os queixos avermelhados
O olhar de uma criança
Sabendo que terá de beber o veneno
Abre a boca com receio de um tiro
O corpo do réptil abraçando-lhe o pescoço
O olhar de uma criança
Sob o descolar de um avião
Ou apenas a sua passagem bombástica
O sobrolho franzido e resignado
Aceitando a cor do seu sangue
A mesma cor do veneno da guerra
in Frederico Rodrigues, Guerra
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